Poucas coisas no mundo me dão mais prazer do que ver o politicamente correto – aquela coisa tão de gente autoritária quanto chata – ser derrotado! E é exatamente o que está acontecendo neste momento com as chamadas armas de brinquedo ou, como seria mais correto, os brinquedos em forma de arma.

“Brincar é sempre brincar. Um revólver de brinquedo não torna ninguém mais agressivo do que já é por natureza. Quando a criança brinca com essas armas que emitem luzes e sons, está representando coisas da vida real. É uma maneira de fantasiar e aprender a lidar com o mundo de forma tão inofensiva quanto jogar botões ou videogame”. Eddna Bomtempo, Mestrado em Psicologia Social e Experimental USP.

De acordo com matéria da Folha de São Paulo esses brinquedos, que foram tão comuns aos que viveram suas infâncias até o início da década de 90 – exatamente quando o “politicamente correto” passou a pautar nossas vidas particulares – estão de volta e com força total. Engana-se o jornal que o fenômeno é uma surpresa ou, como eles próprios afirmam, mais um “efeito Bolsonaro”. As brincadeiras infantis de bang-bang, polícia e ladrão ou guerrinha nunca desapareceram! A única diferença é que as crianças foram praticamente obrigadas a usar aquilo que melhor elas têm: a imaginação! Assim, em vez dos revólveres de espoletas ou pistolas de flechas que tanto brinquei na minha infância, restou o graveto, a arma montada de lego ou simplesmente os dedos simulando toda sorte de armamentos. Não podemos ainda esquecer dos vídeos games onde os jogos de tiro reinam absolutos.

“… medo da violência fez surgir um movimento contra as armas de brinquedo e até contra as brincadeiras em que crianças dramatizam cenas violentas. A vida da classe média brasileira era mais tranquila em outras épocas, e quase ninguém imaginava que brincar de bandido e mocinho pudesse estimular a formação de pessoas agressivas. E não pode mesmo.” Luca Rischbieter – pedagogo.

Não me lembro o ano exatamente, mas chuto que foi há uns 10 anos atrás que a rede de lojas de brinquedo Ri Happy, fundada pelo pediatra Ricardo Sayon, deu de ombros aos progressistas “da paz” e passou a vender a séria Nerf. O sucesso foi imediato e tais brinquedos rapidamente se tornaram um dos mais vendidos da rede. Eu mesmo comprei um verdadeiro arsenal para meus filhos. Logo surgiram as versões “genéricas” em preços mais competitivos, mas quase sempre de qualidade inferior. Também não demoraram a aparecer em lojas e bazares versões mais baratas ainda, invariavelmente fabricadas na China, de qualidade ruim, mas com diversão garantida para os pequenos.

“A gente acaba demonizando arma de brinquedo, vídeo-game e não presta atenção em outras coisas que incentivam a violência, como o comportamento dos pais no trânsito, por exemplo. Acho que nossa maior preocupação deve ser com os exemplos que nós damos para eles.” Rosely Sayão – Psicóloga.

A ideia que crianças devem ser privadas de brincar com armas é estapafúrdia, autoritária e infundada. Muito mais importante que o “com o que elas brincam” é “do que elas brincam” e é aí que os pais entram em ação. As armas de brinquedo podem e devem ser instrumentos lúdicos para aprendizagem sobre certo e errado, bem e mal, responsável e irresponsável. Lembre-se que gostando ou não, querendo ou não, tendo chiliquinhos ou não, elas estão entre nós, sejam em prateleiras de lojas ou na imaginação dos pequenos, sejam de brinquedo ou de verdade, sendo assim, deixe de ser preguiçoso e eduque seus filhos. Imaginar que o mundo será mais pacífico porque crianças não podem brincar de polícia e ladrão faz tanto sentido quanto imaginar que para pacificar nosso trânsito temos que proibir os autoramas.

Bene Barbosa é especialista em segurança, escritor, presidente do Movimento Viva Brasil, palestrante, autor do best-seller Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento e instrutor convidado do Curso Básico de Armamento e Tiro do Projeto Policial.

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