SOBRE A SOMBRA

Primeira Parte

            A Sombra, segundo a Psicologia Analítica, é um dos quatro arquétipos de todo ser humano, desde o mais primitivo ao mais civilizado.

Para maior clareza se faz necessário abordar, de forma super sintética, o conceito de arquétipo e, antes dele o conceito de Psique.

            Segundo a compreensão comum, Psique e Consciência seriam equivalentes.  Jung, porém, chegou a uma conclusão bem diferente, ou seja, considera a Psique como constituindo a personalidade total do sujeito, que engloba as estruturas denominadas Consciência, Inconsciente Pessoal e Inconsciente Coletivo.

            Enquanto o Inconsciente Pessoal seria o “reservatório” de conteúdos que em algum momento já foram conscientes, (e de onde se formam os “Complexos”), no Inconsciente Coletivo encontram-se inúmeras imagens latentes, já denominadas de “imagens primordiais”.Primordial no sentido de primeiro ou original, que diz respeito ao surgimento e desenvolvimento mais primitivo da psique, que é universal, e que remonta ao passado ancestral, passado que inclui todos os antecessores humanos, inclusive seus ancestrais pré-históricos.

            Aos conteúdos deste Inconsciente Jung denominou de Arquétipos. Eles podem ser definidos como o mais próximo do conceito de Instintos, matrizes arcaicas que predispõem à representações típicas, correspondentes às experiências humanas adquiridas no desenvolvimento da consciência. Pois, de fato a Consciência foi uma conquista, a mais importante conquista do ser humano, conquista que nunca termina. Ainda, o Arquétipo é o “núcleo” a “essência” do complexo (termo este de uso comum).

            Quatro são os Arquétipos que, segundo Jung, independentemente de cultura, sexo, contexto social, temporal, geográfico, etc.têm importância fundamental na formação da personalidade e aos quais dedicou atenção especial. São eles:Self, Anima/ Animus, Persona e Sombra.

            No artigo de hoje vamos abordar somente a Sombra, e mais especificamente o seu aspecto negativo e perigoso.

            Desde os tempos mais remotos da humanidade fala-se da sombra de forma metafórica, em relatos bíblicos (Caim e Abel), em contos de fadas (o monstro ou dragão que precisa ser combatido para poder alcançar o tesouro, ou desposar a princesa), nas parábolas, e nos inúmeros mitos desde os mais remotos.

            Todavia, de forma explicita, nas conversas de “bate-papo”, nas trocas de ideias sobre o mundo, ela nem sequer é mencionada, nenhuma importância lhe é atribuída, o que ajudaria ao menos a tomar conhecimento de sua existência.                       Se não formos conscientes da nossa sombra, quando menos esperarmos, ela pode nos tomar, provocando atitudes instintivas e indesejadas.

            Uma citação famosa de Jung a este respeito é:

“ Aquilo que não fazemos aflorar à consciência aparece em nossas vidas como destino”

             A sombra não pertence somente ao individuo, mas também ao grupo, à coletividade, à nação, fazendo com queo “outro”sejaapontado como o diferente, o inferior, o inimigo etc. a ser combatido.

            A seguinte frase de Krishnamurti não poderia ser mais atual:

“O mal do nosso tempo é termos perdido a consciência do mal”

 No próximo artigo vamos falar sobre o lado “bom” da Sombra.

FIORELLA MAZZANTI é psicóloga, nascida em Milão, naturalizada brasileira desde 1977. É pioneira em Cuiabá na aplicação clínica da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e apaixonada pela sua Teoria, amando falar sobre ela sempre que possível.

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