SOBRE ANIMA e ANIMUS

Nos artigos anteriores mencionamos Anima/Animus entre os quatro arquétipos universais de fundamental importância na formação da personalidade. Jung qualificou a Persona como sendo a face “externa” da psique, por ser esta aquela que apresentamos ao mundo, e à “face interna” deu o nome de Anima nos homens e Animus nas mulheres.

Pertencendo por um lado à personalidade, e por outro estando enraizados no inconsciente coletivo, eles constroem um elo de ligação ou ponte entre o pessoal e o impessoal, bem como o consciente e o inconsciente. Representam uma forma compensatória em relação à personalidade externa, consciente e manifesta, podendo ser definidos como características ocultas femininas nos homens e masculinas nas mulheres. Características que, em certa medida, encontram-se sempre presente, mas que, para adaptação externa ou para o ideal social existente são incômodas.

O caráter destas figuras é, entretanto, condicionado pelas experiências que cada um traz em si da relação com indivíduos do sexo oposto no decorrer da sua vida e através da “imagem coletiva” que o homem tem da mulher e vice-versa. Imagem fundamentalmente inconsciente e como tal sempre “projetada” na pessoa amada, o que constitui um dos principais motivos da atração apaixonada ou da aversão.

Embora possam existir inúmeros motivos para que um homem seja atraído por uma mulher (e vice-versa), tais motivos só poderão ser secundários, pois os motivos primários estão assentados no inconsciente. Relacionamentos que contrariam a “Imagem Anima” ou a “Imagem Animus”, acarretam inevitavelmente insatisfação e antagonismo.

Falando da Persona já vimos que muito frequentemente a mesma se encontra inflada ou superdesenvolvida, já em relação à Anima/Animus ocorre o oposto com maior frequência. É possível que uma das razões para esta diferença seja o alto valor que a civilização ocidental atribui ao desencorajamento da masculinidade nas mulheres e da feminilidade nos homens, o que começa cedo, já na primeira infância, de modo que a Persona teria prioridade e sufoca o Anima/Animus. Assim quanto mais a pessoa se identifica com seu papel biológico e social maior será a dominação interna do Anima/Animus. Já vimos que o que é inconsciente é projetado no mundo externo, sobre seres reais, mas se os impulsos de tais princípios forem tomados em consideração e confrontados com o Ego, os fenômenos decorrentes de seus movimentos autônomos se dissolvem e Anima/Animus se torna uma função psicológica da mais alta importância.

Função de relacionamento com o mundo interior, na qualidade de intermediária entre o consciente e o consciente, bem como de relacionamento com o mundo exterior na qualidade de sentimentos conscientemente aceitos.

Mais uma vez encontramos o conceito, fundamental em Psicologia Analítica, do equilíbrio, da compensação entre os opostos, bem como da função integradora que cabe ao Ego entre os conteúdos inconscientes e a consciência. A partir dessa integração a projeção diminui, a consciência se amplia e o individuo se aproxima sempre mais em direção à sua unidade.

O conceito de Anima/Animus, segundo Jung, é incomensuravelmente mais abrangente do que os aspectos biológico sexual e seus estereótipos de comportamento, mais ou menos aceitos, e recorrer à filosofia oriental, que teve grande influência no seu pensamento, pode facilitar esta compreensão.

Pensando nos polos da filosofia Taoista de Yin e Yang (feminino e masculino) diríamos que o Yin corresponde, em termos de significado psicológico, à atividade receptiva, consolidadora, cooperativa, função de relacionamento, Eros materno, enquanto o Yang seria a atividade agressiva, expansiva e competitiva, o Logos Paterno, diferenciador e cognitivo.

Extraído do livro O Ponto de Mutação de Fritjof Capra utilizamos para este proposito as seguintes associações de Yin e Yang

            YIN                                                    YANG

                        Feminino                                          Masculino

                        Contrátil                                            Expansivo

                        Conservador                                    Exigente

                        Receptivo                                         Agressivo

                        Cooperativo                                     Competitivo

                        Intuitivo                                             Racional

                        Sintético                                           Analítico

            Ainda, segundo nos alerta Capra em seu livro, é importante entender que esses opostos não pertencem a diferentes categorias, mas são polos extremos de um ÚNICO TODO. Nada é apenas Yin ou Yang. Todos os fenômenos naturais são manifestações de uma continua oscilação entre os dois polos, a ordem natural é de equilíbrio dinâmico entre Yin e Yang.

Concluindo é possível afirmar que quando, depois que se desfazem as personificações de Anima/Animus e seus aspectos não forem mais projetados e sim incorporados à consciência, quando a Mulher e o Homem Interior são reconhecidos e aceitos, o inconsciente muda de aspecto e aparece sob uma nova forma simbólica, representando o SELF, o núcleo mais interior da Psique.

No próximo e último artigo, falaremos sobre o SELF como arquétipo central e como “meta” do processo de individuação.

FIORELLA MAZZANTI é psicóloga, nascida em Milão, naturalizada brasileira desde 1977. É pioneira em Cuiabá na aplicação clínica da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e apaixonada pela sua Teoria, amando falar sobre ela sempre que possível.

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