O pior dia dos namorados

Um casal com quinze dias dos namorados na conta tem muito o que celebrar, não é mesmo?

Até o nosso pior dia dos namorados.

Era um dos primeiros. Estávamos duros, naquela correria de faculdade, trabalho, sem tempo nem pra respirar direito. Quando assustamos, era o dia dos namorados de novo. Putz!

Sabendo da grana curta, tentei atalhar: sacramentei que não trocaríamos presentes aquele ano. Apenas a presença um do outro, no máximo uma cartinha, era necessária, nada mais. Simples e com sentimento. Concordamos.

Já tinha passado da hora de ele aparecer em casa. Estranhei. Devia ser o ônibus que tinha atrasado, esse 609 demorava horas pra vir do Boa Esperança até o Verdão. Ou isso ou ele devia ter demorado se aprontando, só pode. Deve estar vindo cheirosíssimo. Eu prontinha no sofá, olhando o relógio. Mais meia hora e nada. Num mundo pré celular só me restava esperar.

Com mais de uma hora de atraso ele aparece. Sem tomar banho, cabelo sem cortar. Com a roupa do trabalho. Pensei: é, o ônibus tinha atrasado mesmo. Ou o trabalho tinha sido demais naquele dia.

O sorriso meio amarelo denunciou que ele não cumpriu o trato. Abriu aquela pasta de vendedor que ele usava para carregar vademecum, tirou um pacotinho colorido lá de dentro, e foi dizendo: “é só uma lembrancinha simbólica”. Fiquei toda animada.

Quando abri, palavras não poderiam descrever o que eu via: um chaveirinho de pendurar no carro no formato de um peixinho de pelúcia verde limão. Mequetrefe. Tinha uma ventosa na ponta do cordão, e estava meio amassado, meio encardido, com aquela cara de que tinha ficado pendurado na loja mais de ano, sem achar um compassivo comprador. Detalhe: eu não tinha carro.

Foi impossível conter a dúvida/decepção/indignação. A gente não tinha combinado de não dar nada? E, pelamordedeus, como ele tinha imaginado que dar algo horrendo era melhor que não dar nada? Raiva e risos se misturaram, e o que começou como briga acabou em gargalhada.

E essa é a história do “peixe simbólico” que adoramos dividir com nossos amigos, entre chopes e risadas. Nem preciso contar que depois desse dia jamais ganhei um presente de dia dos namorados. E acho isso ótimo. O peixe simbólico realmente trouxe esse “símbolo” pro nosso dia dos namorados: nos libertou da ocupação de “ter que fazer” alguma coisa nesse dia, que acabou ficando tão monetizado.

Por isso hoje vamos colocar nosso “peixinho” cedo pra dormir enquanto abrimos a garrafa de vinho na sacada.

Happy Valentine’s, my dear… #valentines #peixesimbolico #peixesimbolicomeuovo

*Ligia Maciel da Fonseca Moura, é cuiabana, formada em Direito pela UFMT. É mãe da Manuela, e se interessa por tudo que diz respeito à política, família, culinária, tecnologia, relações humanas, e tudo mais que faz desse mundo mais interessante.

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