Foram muitas palavras não ditas, gritos contidos, palavrões engolidos. Por questão de sobrevivência humilhações e tristezas foram disfarçadas muitas vezes por sorrisos amarelos. Foram anos, que pareceram uma eternidade. Embora eu continuasse viva naquela relação abusiva, eu não sabia, mas estava adoecendo. Alma despedaçada e corpo que em breve iria dar um grito tão alto quanto o pedido de socorro que teimava em não sair.

A surra que logo no inicio do relacionamento quase me matou me impedia de buscar ajuda. Ainda podia sentir a mão de pilão dilacerando minha carne, o medo que senti naquela noite ainda me acompanhava. Lembro que só de pensar em rodar a maçaneta da porta eu já ficava estática, suava frio. Se naquela noite sem nenhum motivo ele havia quase me matado, imagina o que não faria se eu desse “motivos”.

O silêncio e a resignação se tornaram meus companheiros, mas o corpo, este foi se preparando para falar e um dia ele não resistiu e gritou. Mesmo que eu tenha feito de tudo para permanecer viva naquela relação abusiva, naquela manhã quando recebi a notícia vi que de fato ele iria me matar de um jeito ou de outro.

O diagnóstico foi arrasador: câncer na tireoide e, por incrível que pareça, não tive medo. Desde o primeiro momento acreditei na cura e também consegui compreender a vida que eu estava vivendo, que na realidade não era a minha vida, mas a de outra pessoa.

O pior nisso tudo é que o diagnóstico veio acompanhado de um elemento que mataria de vez o meu maior sonho, o de ser mãe. Eu já tinha um problema nas trompas que ao longo dos anos me impediu de engravidar e agora sem a tireoide, que foi retirada para evitar que o câncer se espalhasse e o tratamento do câncer, diminuíram ainda mais as chances de eu ser mãe.

Desistir, nunca passou pela minha cabeça, decidi lutar, dar a volta por cima. Enfrentei o tratamento e com muita fé consegui forças não só para vencer o câncer como também para me libertar daquele relacionamento abusivo e agressivo.

As duas coisas aconteceram praticamente ao mesmo tempo. Primeiro, disse não ao câncer e, dois meses depois de concluído o tratamento, disse não também para aquele que um dia pensou que iria conseguir me destruir. Não! Não pense que foi fácil assim dizer não para ele, mas isso conto em outra ocasião.

Retomei minha vida e aos poucos fui conquistando tudo que um dia havia sonhado. Me tornei uma pessoa bem sucedida profissionalmente, comecei um novo relacionamento cheio de amor e respeito e foi durante uma crise de enxaqueca que no hospital descobri que estava gravida. Estranho como as coisas acontecem, em meio a dor pulsante de uma enxaqueca pude sentir a maior alegria de toda a minha vida.

Não faltava mais nada. Em 2010, três anos depois de ter vencido o câncer e ter me libertado daquela relação abusiva, nasceu minha filha Luna. Agora minha existência estava completa e apenas vida, vida e vida passavam pela minha cabeça.  Essa é a mensagem que quero levar nesse dia, a mensagem da vida e que para as muitas pessoas que estão passando por momentos difíceis, lutem pela vida, lutem para viver sem vitimíssimo, lutem como guerreiros e guerreiras que são.

SIRLEI THEIS é advogada, especialista em gestão pública e ex-vítima de Violência Doméstica.

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