thumbnail_imaraLá se foram os tempos das medidas ‘milimetricamentes’ retas, das paredes brancas, dos quadros negros e das portas e janelas lisas. Lá se foram os abecedários e cartilhas das palmatórias. Em tempos de modernização, a educação ganha novos formatos. Aprender nunca esteve tão cheio de cores e traços. A educação ganhou nova roupagem e trouxe com ela um cenário encantador de ler e escrever. É nesse contexto que a professora doutora em artes, Imara Quadros ‘rascunha’ seu amor pelas cores e formas. Gaúcha de Passo Fundo, encantada com as artes populares, Imara acredita na arte como toda forma de expressar, como o caminho para profissionais melhores. Dona de uma imensa alegria, ela se denomina uma grande sonhadora.  “Estou na arte educação há mais de 30 anos e continuo com o mesmo fôlego.  Trabalho por sonhos. Sempre busco os sonhos e não paro enquanto eles não acontecem.” 

Extra MT – O que é arte?

Imara – Os pensadores organizaram as artes em três partes: som, corpo e imagem. Do som é a música cantada; do corpo a representação, a dança e a imagem aquilo que se vê, seja na forma dimensional ou tridimensional. Mas é complicado definir arte. Ela é algo que se sente. Uma interpretação. Ela não é uma resposta única, muito pelo contrário, ela tem ‘trocentas’ respostas possíveis. Não se discute arte. O que para mim, como professora, pode ser feio, para o aluno, pode ser bonito.  A arte para mim é algo que se vive, uma entrega. Tanto para o apreciador quanto para o fazedor. Por isso a escola tem que fazer arte, para que ‘ela’ seja uma boa apreciadora.  Seja visual ou não, enquanto o ser não entender o que é sentir ele não vai conseguir entender o que é arte.

 

Extra MT – Quando se inicia a arte visual no contexto da educação infantil?

 Imara – Ela se presencia na criança muito cedo.  Talvez com um ou dois anos, quando a mãe, os irmãos, tia começam a ver que as paredes foram riscadas, que os móveis apareceram com risco de batom ou de caneta. Ela sente desejo de deixar uma marca, mas como ela descobre isso?! Não é nada intencional. Ela acha uma caneta e vai para a parede e começa a riscar, e por não ter coordenação motora começa a risca sem parar. Tudo pelo prazer de ver que o movimento que ela fez deixou uma marca. Ao dominar os movimentos, ela começa a fazer bolinhas irregulares e vai fazendo bolinhas dentro de bolinhas, que ganham riscos, que viram gente, casa e bichos. A expressão já é do humano. Seja a falada, escrita, dançada. O gráfico plástico é que muda.

 

Extra MT – Qual o fator predominante de continuidade dessa arte na vida da criança e o que inibe esse desenvolvimento?

Tudo começa em casa, com a família. Então, tudo depende muito da educação que ela tem dentro de casa. Do incentivo ou não incentivo que ela recebe. O problema é quando ela vai para escola. Dentro disso, tem dois momentos cruciais: quando esses pais, tias, pessoas que cuidam não teve formação de artes e começam a inserir a artes de maneira errada. Com desenhos das casinhas, montanhas, sol. A criança passa entender que aquilo é desenho e que ela tem que conseguir aquilo. Se ela não fizer, ela não desenha corretamente.  Ela é excluída, ela faz feio. E, na ‘cabecinha’ dela quem sabe desenhar é sempre o outro. Se a família tem o conhecimento ela propicia isso a criança. Então o conhecimento vai sendo incluindo sem dor, sem preconceito.  Ela não está estudando artes para o vestibular. Está estudando como conhecimento humano.

 

Extra MT – Quando a arte visual chega ao Brasil?

Imara – Na história oficial ela chegou com Dom João XI. Ele trouxe a Escola de Belas Artes. Nesse ponto de partida, a arte está no Brasil desde os tempos de Cabral. Mas, e aí eu falo pela minha visão, o solo brasileiro á produziu artes através das etnias indígenas. Elas tinham todo um arsenal estético, que até hoje não conhecemos bem. Isso é o nosso berço de artes. Por isso, deveríamos começar a estudar artes por eles, os índios.

 

 

 

 

 

Extra MT – O que seria esses aspectos cognitivos que tanto falam nas artes visuais, e que até pouco tempo não faziam parte dela no cenário da educação?

O cognitivo está todo permeado na questão de trabalhar a sensibilidade, essa criatividade. É esse ‘bojo’ que envolve o aprendizado da arte voltado para formar pessoas. Há uma provocação na aprendizagem, e quando ela acontece; essa maneira de sentir, então o medo da crítica, da expressão acontecem, e o indivíduo entende que não tem que justificar nada. Isso é o trabalho cognitivo; da reflexão que conhecemos como inteligência artística ou estética.

 

Extra MT – A criança que recebe uma educação traçada no contexto das artes tem diferencial daquelas que recebem uma educação formal?

Imara – Eu não consigo conceber conhecimento separado em caixinhas. Ele é tudo   aqui e agora. Isso dentre e fora da escola. Falar que se aprende só em um lugar, ou só uma coisa é extremamente limitante; isso não seria arte. Qualquer aprendizado é sempre amplo, mas insisto: é sensibilidade, criatividade do saber artístico e estético. O aluno que recebe a educação nesse contexto de artes, na realidade, não tem vantagens sobre o que estuda em uma escola que não se aplica artes. Porque o conhecimento se adquire em qualquer lugar. Então, eles podem encontrá-la em outros lugares.

 

Extra MT – Dentro da “amplitude” da arte, quais seriam as atividades desenvolvidas dentro e fora das salas de aula, além de desenhos e pinturas?

Imara – Aqui no IFMT tenho proposto a arte contemporânea. E que ele descubram o que é a arte. Não eu respondendo, mas ele se descobrindo. Trabalhamos com matérias do lixo (latas, forros, botijões, placas de metal). E transformar isso em artes que é o segredo. Sair do convencional (desenhos e pinturas). O fundamental é o material e depois a forma de trabalhar; a alma disso tudo é o professor.

 

Extra MT  – Como a sociedade (pais) recebeu esta nova maneira de ensinar?

Imara – Aqui em Cuiabá, e até por eles (alunos) serem maiores, eu não tenho este retorno, mas no período que trabalhei com o infantil, tinha uma boa aceitação. Os pais chegavam a pedir oficinas de artes voltadas para eles. Então, enquanto educação infantil tive sempre um retorno positivo da sociedade.

 

 

 

Extra MT   – A arte nesse todo é difícil de ser notada, mas podemos analisá-la em diversos projetos com as classes menos favorecidas. Um exemplo é o trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado com o Movimento dos ‘sem-terra’.  Existe este cenário na educação em Mato Grosso?

Imara – Movimentos sociais têm bastante. Agora focado na educação, não conheço nenhum trabalho. Falta alguém se sensibilizar e ter esse olhar de captar os traços das artes nas escolas.

 

Extra MT   – Falamos muito em analfabetismo no Brasil. Infelizmente a taxa ainda é grande. O analfabetismo visual entra nesse déficit?

Imara – Na medida em que não há uma intenção de educação artística na escola, logo a um analfabetismo ‘imagético’ de forma geral. Todos podem até perceber a imagem, mas não sabem lidar com ela. Não sabem compreender, dialogar. De forma genérica, a educação é, ainda, passiva, como diz Paulo Freire “Ela é ‘verbosa’, engessada. Enfim, um analfabetismo mesmo.

 

Extra MT   – Qual o cenário brasileiro, hoje, no interesse pelas artes visuais na educação?

Imara – Precisamos de um interesse maior, aí falo dos governantes também. As pessoas até conseguem – não porque estudaram – compreender que teoricamente a arte é importante. Isso porque ouviram, leram ou assistiram algo sobre o assunto. Mas ela nãos sabem o que fazer com essa ‘batata quente’ nas mãos. A sociedade já começa a ter uma certa intenção pelo assunto, mas de boa vontade não o país não muda. De boa vontade uma realidade não se transforma. Precisa-se de lei, de programas políticos. De se propor isso. Dizer: Nós vamos fazer!

 

Extra MT    – A professora da Escola de Comunicação e Artes da USP, Ana Mae  Barbosa, disse que um pais só pode ser considerado culturalmente desenvolvido se ele tem uma alta produção e também uma alta compreensão dessa produção. O Brasil tem essa percepção desenvolvida?

Imara – O Brasil tem a produção, e não é pequena. É uma produção maravilhosa de ponta a ponta. Porém, não temos o conhecimento para compreender toda essa produção. A escola não aproveita quase nada. Mas por falta de vontade política e não por aplicação dos educadores. É um efeito dominó, se não tem vontade política , não tem a arte. Vira uma ‘monte de nada’.

 

Extra MT  –  – Aplicar a arte visual nos planos de aulas e desenvolver as atividades já está sendo estudo de causa há um tempo. Mas e a aplicação da arte visual nos cenários que desenvolvem-se as aulas (salas, bibliotecas, pátios), como são construídos e o que aprimora no desenvolvimento da criança?

Imara – Vou chamar essa construção de exposição. Então, a exposição sempre foi conteúdo, é algo que se aprende também. Tanto aprender a construir como apreciar. Ambientar o espaço auxilia nesse dinamismo de compreensão das artes. Eles criam o cenário e quando fazem isso, ajudam a si próprio a entender melhor as expressões. No momento que eu exponho um ambiente, automaticamente ele se estende além do fazer.

Extra MT  – – Por que arte na educação?

Imara – Para mantermos humanos. A arte é para ser feliz, sentir prazer, sorrir, chorar. Para existir. Não separamos emoção de razão. Elas andam juntas. Eu não consigo sentir sem refletir e não consigo refletir se eu não me emocionar. É um exercício de se trabalhar razão e emoção e não esquecer que somos humanos. Por isso artes na educação!

 

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