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O importante não é como você cai, mas sim como se levanta, reza a frase de autoajuda que ignora que a lei da gravidade pesa mais sobre alguns. Mas os melhores tombos são aqueles que, depois percebemos, não passaram de um tropeço. Mais ou menos assim é a vida do Palmeiras: três dias após sucumbir na Libertadores, a esquadra verde engatilhou o título brasileiro ao bater o Santos, em jogo que valia mais do que três pontos.

A diferença para o vice-líder aumentou um ponto após os resultados do fim de semana. Antes, a escolta imediata era o Flamengo; hoje, é o Inter, que está cinco pontos distante do time alviverde, mas precisa obrigatoriamente sacar uma diferença de seis pontos em 18 possíveis, já que a diferença do sado de gols é quase irreversível (29 a 20). As chances de título do Palmeiras hoje alcançam 88%.

A proximidade do Palestra para o título, no entanto, cresceu bastante mais do que sugerem os números da tabela, frios como os pensamentos de um açougueiro. O que realmente conta nesta rodada é que a equipe de Felipão saiu de uma eliminação dolorida na Libertadores (competição que tinha plenas condições de vencer) para a prova de fogo que era um clássico contra um adversário empolgado.

E, nesse divisor de águas contra o Santos, após abrir uma sólida vantagem de 2 a 0, um segundo tempo com o elástico já cansado permitiu o empate. O normal, especialmente poucas horas depois de uma eliminação, era que a equipe fosse vítima de certo pânico. De uma desordem, talvez emocional, talvez estrutural, talvez cósmica. É verdade que o gol da vitória veio de bola parada, e com auxílio involuntário do (excelente) arqueiro Vanderlei, vítima de súbita cãibra no cerebelo, mas nenhuma desordem decisiva aconteceu. O Palmeiras encarou o jogo como uma decisão e com justiça, ao fim, comemorou como quase campeão.

É paradoxal que o time de Luiz Felipe Scolari, notório conhecedor dos atalhos do mata-mata, não tenha sequer decidido as copas que disputou. Mas, irônico, esse mesmo Palmeiras, muito próximo de mais um título brasileiro, pratica nos pontos corridos um futebol muito semelhante ao que geralmente triunfa nos embates eliminatórios. Não tem interesse em dominar as ações, às vezes sequer faz questão de se impor, mas é muito inteligente e resistente ao praticar este jogo de franca troca de golpes. Dessa forma, chegou à impressionante marca de 13 jogos sem derrotas (dez vitórias e três empates), sob influência de um certamente sedento Felipão, que conta os dias para faturar seu primeiro título em pontos corridos em um campeonato relevante (até hoje, venceu apenas na China).

A Libertadores é sempre uma obsessão, e é natural que seja encarada dessa forma. O problema é que sua conquista é uma improbabilidade que apenas um dos participantes consegue desmentir, e a roleta do cassino na maioria das vezes é madrasta. O importante, na verdade, é nunca cair totalmente: “Eu não tropecei. Estava era pegando embalo”, diria o filósofo noturno vestindo uma castigada camisa alviverde dos anos 1980, enquanto procura outras pedras para chutar e outros balcões onde escorar o braço. Se as sempre acidentadas veias da América se fecharam para o Palmeiras, o percurso rumo ao título brasileiro parece pavimentado com veludo.

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