Celly Silva/GD

Em passagem por Cuiabá, onde proferiu uma palestra na manhã desta quarta-feira (8) no Congresso Nacional dos Auditores de Controle Externo (Conacon 2017), o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot defendeu a necessidade de uma reforma no sistema político brasileiro como forma de combater à corrupção, também sistêmica no país.

“O problema pelo qual o país passa, necessariamente passa por uma reforma política, não há outra solução possível. A solução não é policial, a solução não é judiciária. A solução é política. A gente vive um problema de representação e o sistema tem que ser alterado”, afirmou.

Marcus Vaillant

Rodrigo Janot

Alfinetada em senadores

Ao exemplificar sua opinião, o procurador do Ministério Público Federal (MPF) citou o fato de senadores exerceram cargos sem nenhuma legitimidade popular, por não terem recebido votos e assumido por serem suplentes de políticos que fizeram campanha, ganharam, mas depois assumiram outros cargos. É o caso de dois representantes de Mato Grosso no Senado: José Medeiros (Podemos) e Cidinho Santos (PR), que entraram nas vagas de Pedro Taques (PSDB) e Blairo Maggi (PP), respectivamente, após estes assumirem os cargos de governador e ministro.

“Eu não sei se vocês já se deram conta, mas nós temos alguns senadores da República que estão ocupando a senadoria sem ter tido nem mesmo um voto. Não tiveram voto nenhum, zero! O sujeito era suplente daquele que fez campanha, ninguém nem mesmo sabia quem era a pessoa! Aí o senador é chamado pra ocupar um ministério, o senador é chamado pra alguma coisa, assume o suplente. Qual é a representatividade que tem essa pessoa? Voto zero! Qual é a vinculação, qual é o compromisso que essa pessoa tem? Voto zero!”, asseverou.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Janot também criticou a forma de ingresso na Câmara Federal, com eleição de candidatos beneficiados por coligações, mesmo não recebendo votos nominais expressivos. “Vamos lá pra proporcional então. Vamos pra Câmara dos Deputados. Já passou pela cabeça de vocês que tem lá na Câmara deputado que se elegeu com dez, doze votos? Qual é a representatividade de um parlamentar desse? Qual é o compromisso de um parlamentar desse?”, exemplificou.

“A tal das coligações horizontais e verticais que deturpam completamente o sistema, financiamento de campanha. São várias as questões que têm que ser enfrentadas. O sistema político tem que ser alterado. Senão, nós vamos demorar muito, mas muito mesmo pra sair da crise que a gente está hoje”, avaliou Janot.

Solução possível

Além de apontar os pontos a serem superados no sistema político brasileiro, Rodrigo Janot afirmou que é preciso mais participação popular nas decisões políticas. “Nós temos que apostar em 2018. Qual é a solução em 2018? Cidadania ativa, cidadania ativa! Sem isso não há solução no Brasil”, disse.

Segundo ele, a crise política é a mais grave no momento atual e deve ser priorizada em detrimento de outros assuntos também delicados. “A primeira crise que o Brasil passa é a crise política, não é a crise ética, a crise moral. É a crise política! Consertando a crise política, se começa a ter formulação de políticas públicas, de política de educação, segurança pública, saúde, infraestrutura, investimento e tudo é um boliche, você derrubou um pino, você vai derrubar vários dos pinos. Eu acho que ou passa pela reforma política ou a gente ainda vai demorar muito pra sair dessa crise que a solução não é judiciária”, concluiu.

Deixe uma resposta